Completamente
A última coisa que desejava era ficar em casa. Cada ângulo de cada cômodo trazia uma lembrança.
Cada vez que respirava sentia o cheiro, e doía.
Colocou no fone o último disco de Herbie Hancock e saiu sem destino, empacotado no seu moletom canguru.
A garoa fina que caía, aliada ao piano melancólico criava uma atmosfera de desolação. Acendeu um cigarro e imaginou a voz forte de Billie Holliday cantando:
“So I smoke a little too much…
But what else can you do, at the end of a love affair”.
Caminhou o suficiente para conter os inquietos pensamentos; passou por ruas escuras e desertas, e isso era a transliteração visual do que ele imaginava ser seu coração.
Pensou que talvez já esperasse o golpe. Afinal, aquele que se entrega ao outro como um prisioneiro de guerra deve antes entregar todas as armas. Vendo-se sem defesa, não pode deixar de se indagar quando virá o golpe.
Por isso, é possivel dizer que o amor para ele era a espera contínua do golpe que iria atingi-lo.
Acendia um cigarro no outro, como se a fumaça pútrida fosse amenizar sua angústia; sabia que não. Aliás, sabia que de nada adiantaria andar feito um idiota sem destino.
Foi quando pensava nessas coisas que ouviu uma voz dizendo “volta pra casa”. Era uma voz quente, que entrava pelos seus ouvidos e ressonava por todo o seu corpo. Sentia-se bem.
Jogou o cigarro no chão, pisou em cima, cobriu sua cabeça com o capuz e obedeceu à voz. Voltou pra casa.
É possível dizer que pela primeira vez na vida sentiu-se completo por apenas gostar de alguém, de verdade.
Herbie Hancock feat. Corinne Bailey Rae - River
Posted by Elder Martins | Filed under coisas da vida, contos, literatura











