Qualquer Lugar

Logo ao primeiro canto do galo Seu Benedito colocou os pés no chão, primeiro o esquerdo, depois o direito.
Sentado na cama calçou suas pantufas, tateou no criado-mudo seus óculos de aro e lentes grossas, colocou a cordinha ao redor do pescoço e levantou-se.

Enquanto comia um pão dormido, seu velho radinho Philips, sintonizado numa rádio AM qualquer, rasgava o imperioso silêncio da manhã.
Tão logo terminou de comer, limpou os farelos na camisa, colocou o jornal debaixo do braço e saiu de casa, assobiando um velho samba de Cartola.

Seu Benedito, o velhinho sorridente da Vila Matilde, era muito querido pela vizinhança. Porém, seu sorriso era apenas um disfarce.
Desde que sua esposa falecera, o septuagenário não tinha mais alegria. Vivia solitário, assistindo seus amigos morrer, um após o outro.
Pedia constantemente a Deus que o levasse logo e acabasse de vez com seu insabor.
Não sabia se tinha a coragem de ainda enfrentar a vida, ou a covardia de não ser capaz de dar cabo dela.

As portas do vagão de metrô se abriram e lá foi o velhinho, embrenhando-se à manada de trabalhadores que se estapeavam por um bom lugar.
Ofereceram-lhe assento mas não aceitou, ficou em pé durante todo o trajeto.
Na quinta parada Seu Benedito saltou. Estava subindo a escada rolante da estação Bresser e comentou com a pessoa do degrau abaixo - “pelo barulho devem estar fazendo uma algazarra ali em cima”.

Foram apenas dois passos após sair da escada, primeiro o esquerdo, depois o direito. Seu Benedito finalmente teve seu pedido atendido por Deus.
O que de fato aconteceu ele nunca soube, afinal, balas perdidas são assim, saem de não-sei-onde com destino a qualquer lugar.

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2 Responses to “Qualquer Lugar”

  1. Paulo Câmara Says:
    abril 28th, 2008 at 23:18

    Muito bom o texto cara, você consegue fazer um retrato mto bom, me senti na vida do seu benedito. Destino é a senha. Me lembrou de um amigo que falou certa vez: Eu atiro, quem mata é Deus.

  2. ThiagoAX Says:
    abril 30th, 2008 at 1:20

    mto bom o texto.

    parabéns. gostei da historiedade contida.

    abraços

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