Barbeiro: a figura mítica
Na época eu ainda podia contar a idade nos dedos. Esperava impacientemente olhando as revistas gastas e balançando no ar os cadarços desamarrados. As paredes eram revestidas de madeira, e nunca me esquecerei do quadro com a imagem de uma perua e os dizeres: ‘fumar é cafona’.
Eram preciso duas ou três almofadas para me deixar numa altura boa, e após algumas borrifadas de água o Borges começava, com suas mãos de tesoura e sua língua de prosa, a fazer o seu trabalho.
A única parte ruim do processo era o que ele chamava de ‘toque final’: o Bozano amarelo que fazia arder. Fora isso era sempre um acontecimento, e eu saía feliz da vida, natural de quem acaba de comprar um novo corte.
O ritual geralmente acontecia no sábado de manhã, com direito a pastel de feira na sequência. Mas o tempo foi passando e a imagem heróica do barbeiro foi sendo trocada pela figura de um profissional retrógrado. Afinal, ser hair stylist é bem mais na moda. [Aproveito para fazer o comentário de que a expressão "barbeiro" usada aqui é genérica. Pode ser o meu, o seu, ou se você for mulher, o do seu pai. Enfim, pode ser qualquer barbeiro.]
Meu tempo de frequentar salões sofisticados durou pouco. Aliás, não era corte de cabelo o que eu fazia, era hair design conceitual, uma finesse.
Acabei percebendo que poderia fazer igual (ou melhor) em casa. Só precisaria de uma tesoura e muita falta do que fazer.
O resultado era muitas vezes satisfatório, mas o problema era sempre a ‘evolução’. Quem sabe cortar cabelo, planeja; corta pensando em como ele vai crescer. No meu caso o corte era uma resposta imediata. Quando crescia, o cabelo ia tomando formas que nem a Mãe Diná conseguiria prever.
E aí, quando seu cabelo está sem corte definido, desajustado, desalinhado e tudo no mundo que comece com ‘des-‘, você precisa de ajuda.
Na hora do aperto o barbeiro prova o seu valor.
Fui entrando devagarinho, como um filho pródigo que retorna à casa após suas andanças pelo mundo.
Fui recebido com um abraço, e após iniciar uma conversa rápida sobre futebol sento-me sem a ajuda das almofadas. Lá vai o Borges mais uma vez, com suas mãos de tesoura e sua língua de prosa. O resultado é inesperado.
Acabo refletindo que ‘afinal, barbeiros não são tão retrógrados assim’.
Depois de um tempo você acaba percebendo que na lista de ídolos de qualquer homem está invariavelmente: Garrincha, Pelé e o barbeiro.
Tags: barba, barbeiro, cabelo, homens, infância, macho, masculinidade, recordações, salão, universo masculino
Posted by Elder Martins | Filed under coisas da vida, contos, mundo, teorias
2 Responses to “Barbeiro: a figura mítica”
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FridaFreak Says:
junho 12th, 2008 at 13:18HUahuahua nossa, parece q vc tem uns 60 anos de idade assim =)
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Thatá Says:
junho 15th, 2008 at 16:16só 60!?
kkkkkkkkkkkkkbrincadeeeeira, queri!rs
adorei o post.
mais ainda a foto.oooutro











