Sobre Perguntas e Respostas
Uma coisa que sempre me incomodou (e continua incomodando) é o modo binário de pensar ao qual fomos formatados desde a infância. É ou não é, está ou não está, existe ou não existe.
As pessoas que se salvam da maldição dualista são aquelas que, como Shakespeare, percebem que existe muito mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia. E aí entra o grande desafio: ver além do visível.
É engraçado perceber que num sentido físico, nossos aparatos são ao mesmo tempo recursos e limitadores de compreensão.
Além do pensamento binário a nós sujeitado, está o que eu costumo chamar de “sistema pergunta-resposta”. Esse “sistema” está presente não só na fase de cognição infantil, mas vai até a faculdade, o que me preocupa e assusta muito mais.
1. Quem descobriu o Brasil?
- Quem descobriu o Brasil foi Pedro Álvares Cabral.2. Qual é o primeiro elemento da tabela periódica?
- O primeiro elemento da tabela periódica é o Hidrogênio.3. Em ‘A ética protestante e o espírito do capitalismo’ Max Weber sustenta uma afirmação. Que afirmação é essa?
- Max Weber sustenta que, de uma maneira geral e sedimentada no aspecto social-religioso da história moderna da Europa, foram os protestantes que mais prosperaram dentro do sistema econômico ascendente, o capitalismo.
As três perguntas acima servem para ilustrar que em todos os períodos da vida, o método “pergunta-resposta” se faz presente na construção do conhecimento.
Um antigo conto da tradição judaica fala de um homem que estava em uma busca interior. Atormentado pelas questões existencias, resolveu fazer uma viagem à certa localidade onde vivia um célebre rabino conhecido por sua sabedoria.
O homem viajou por muitos dias, centenas de quilômetros até o vilarejo do famoso rabino. Quando lá chegou, perguntou às pessoas como poderia se encontrar com o mestre. Todos riram dele, dizendo: ‘Não sabe que o rebe vive em reclusão há mais de vinte anos? É impossível falar com ele.’ O viajante porém não desistiu. Esperou por uma oportunidade e, quando os discípulos do rabino bobearam, conseguiu entrar no escritório onde o velho sábio estudava.
O rabino demorando a perceber que tinha companhia, suavemente foi tirando os olhos do pesado livro que estudava e fitou o intruso.
- ‘Perdão, venerável mestre; venho de muito longe com uma questão que tem me angustiado muito e gostaria que o senhor, com toda a sua sabedoria, me respondesse’.
- ‘E qual é a pergunta?’, indagou o rabino de modo delicado e indiferente.
- ‘Gostaria de saber qual é a essência da vida’.
O rabino lançou sobre ele um olhar profundo, levantou-se calmamente e esbofeteou o visitante.
Magoado e muito triste, o homem seguiu para uma taverna onde, em meio a um choro profundo, começou a beber para esquecer a experiência tão decepcionante. Um jovem local, sabendo do que ocorrera, aproximou-se e ofereceu ajuda.
- ‘Obrigado’, reagiu o homem; ‘não foi nada… é que eu vim de muito longe com uma pergunta muito importante e fui recebido assim pelo seu rebe’.
- ‘Mas o rebe não faria isso à toa. Deve haver uma explicação’, ponderou o jovem.
Um terceiro, que ouvia a conversa toda, retrucou de forma decidida: ‘Ele te esbofeteou para que aprendesses a não trocar uma boa pergunta por uma resposta’.
Não que eu seja contra as respostas; não é isso. As respostas são úteis, e muitas vezes nescessárias. Mas se é massa crítica o que queremos, as respostas terão de ser o começo ou o meio, e nunca o final; porque de uma maneira geral, a resposta é um limite, enquanto a pergunta é um estímulo.
A forma mais fácil de construir a mediocridade é dando uma resposta à cada pergunta.
Nem tudo na vida tem resposta, e é melhor que seja assim; nos dá a chance de sonhar.
Tags: caráter, crítica, educação, essência, explicação, faculdade, filosofia, formação, intelectualidade, judaísmo, mundo, mundo moderno, pensamento, perguntas, questionamentos, rabino, respostas, sabedoria, sentido, ser, sistema, sociedade, teoria, vida
Posted by Elder Martins | Filed under coisas da vida, contos, literatura, música, teorias
5 Responses to “Sobre Perguntas e Respostas”
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Ju Says:
junho 4th, 2008 at 1:07mesmo não gostando de paulo coelho, li o alquimista e o mesmo trás a mesma mensagem
é simples, pena não pensarmos tanto sobre… -
Rap Says:
junho 4th, 2008 at 10:56Sem a dúvida o que seria das nossas buscas diárias por respostas? Muito bom o texto, vou divulgar, ok?
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kessia Says:
junho 4th, 2008 at 11:52respostas prontas evitam perguntas complexas, n é mesmo?.. se pensarmos a fundo, essa forma de ensino nda mais é do q uma forma de controle.. pessoas q pensam menos, sabem menos, questionam menos, exigem menos mudanças.. e portanto, são mais manipuláveis e suscetíveis a se conformarem com respostas do tipo “é assim, pq sim!”
mto bom teu blog..
cheguei aqui por propaganda do rap aí em cima =)abs!
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Thatá Says:
junho 6th, 2008 at 11:38rs…coisa boa tem de ser divulgada msm!rs
”a resposta é um limite, enquanto a pergunta é um estímulo.”
isso vai pro livro de frases profundas, cara!!
beso, chico!
te echo de menos.
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lis Says:
junho 9th, 2008 at 10:34You can’t find the answers
Till you learn to question.
(Without Condition; Ginny Owens)Não me surpreenderia se você dissesse que já conhece mas, eu lembrei dessa música quando li o texto. Gostei dele demais
Ouve ela e me diz se gosta.. 











