Profundidade

Era um daqueles domingos ensolarados. Havia uma brisa que soprava suave e aquela sensação de Domingo, que só esse dia inexplicavelmente carrega consigo.
Ele preparou o café da manhã e acordou as meninas. A mãe, que estava viajando à trabalho, deixara tudo organizado, de modo que a roupa de domingo já estava escolhida.

Os três tomaram o café e saíram, cada qual com seu óculos escuro.
Não havia briga para ver quem sentaria no banco da frente. Era decidido que as duas sentariam no banco de trás até terem idade suficiente para serem promovidas a co-piloto. E sim, já estava combinado que quando essa data chegasse, alternariam os dias, para não haver brigas nem favorecimentos.

Chegaram à feira. As velhinhas lentamente empurravam seus carrinhos e os velhinhos, de boina e calças de moletom, cumprimentavam-se uns aos outros.
Não iriam passear, comprariam apenas um tanto de manjericão; coisa rápida. Aliás, diziam as velhinhas que o manjericão age como um integrador familiar, seja lá o que isso queira dizer.

Por insistência das meninas, acabaram levando além do manjericão, quatro pastéis (embalados para viagem).
Tudo demorou menos de dez minutos, e lá estavam os três novamente dentro do carro, rumo ao que eu também chamaria de integrador familiar: o almoço de domingo na casa da sogra.

A casa da sogra ainda era a mesma de quando ele namorava. Ficava em uma rua bem arborizada, com um playground e uma pista de skate na outra calçada. É claro que precisou explicar às filhas que só poderiam brincar no parquinho depois do almoço; o que provocou um melodioso dueto de “Ahhh….”.

Antes mesmo de apertarem a campainha, a simpática senhora já os esperava no portão. Era uma daquelas cenas típicas de vó: a espera no portão, o avental de cozinheira, as mãos no quadril e o sorriso manso, de quem tem história pra contar.
Não aparentava a idade que tinha. Era uma mulher ágil e cheia de vida, que aprendera a ser forte para criar as filhas sozinha.

Deu um beijo em cada um e entraram. O almoço estava quase pronto, só faltava o manjericão.
Na cozinha, entre uma mordida e outra nos pastéis (três de carne e um de palmito) conversaram assuntos variados. Trabalho, escola, balé, natação, férias, família, conhecidos e culinária.

Depois do almoço os quatro se empenharam na tarefa de arrumar a cozinha. Um lavava, outra enxugava, outra guardava e outra fazia um pouco de tudo.
Vale acrescentar que as meninas faziam tudo com muita pressa, pois conforme o combinado haveriam de brincar no parquinho tão logo a cozinha estivesse brilhando.

Dito e feito. Assim que a última louça ficou seca as meninas correram para fora da casa.
Ele sentou no banco de tronco e ficou apenas observando o modo como o sol tocava os cabelos das duas pequenas.
Foi mais ou menos nessa hora que percebeu o que havia acontecido. O café da manhã, as meninas, a feira, os pastéis, o manjericão, a sogra, o almoço; tudo aquilo foi apenas uma visão de um futuro possível. Metade de um domingo que se passou em, talvez, um segundo.

Estavam dentro do carro. De um lado, a casa. Do outro, o parquinho e a pista de skate. Em seus braços, a garota dos olhos hipnóticos.
Quanto tempo haveria passado? O que será que ela estava pensando? Será que pensava nele?

Ora, é óbvio que pensavam um no outro, afinal, o relógio marcava 06:06.

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3 Responses to “Profundidade”

  1. Rap Says:
    novembro 3rd, 2008 at 8:22

    O final é no estilo: entenda como quiser? Ou eu que quero enxergar mais de uma situação? hehe

    Muito bom cara. Bela narrativa…

  2. Sabine Says:
    novembro 23rd, 2008 at 1:30

    muito, muito bom!

  3. lis. Says:
    dezembro 2nd, 2008 at 1:25

    eu já te disse que você ME MATA DE ORGULHO?
    esse texto tá MUITO BOM. MUITO, elder. com caps lock.

    daria um bom roteiro :)

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