Profundidade
Era um daqueles domingos ensolarados. Havia uma brisa que soprava suave e aquela sensação de Domingo, que só esse dia inexplicavelmente carrega consigo.
Ele preparou o café da manhã e acordou as meninas. A mãe, que estava viajando à trabalho, deixara tudo organizado, de modo que a roupa de domingo já estava escolhida.
Os três tomaram o café e saíram, cada qual com seu óculos escuro.
Não havia briga para ver quem sentaria no banco da frente. Era decidido que as duas sentariam no banco de trás até terem idade suficiente para serem promovidas a co-piloto. E sim, já estava combinado que quando essa data chegasse, alternariam os dias, para não haver brigas nem favorecimentos.
Futuro dos Sonhos
Uma pesquisa britânica recente, realizada pela Universidade de Dundee revela que a Televisão influencia a cor dos nossos sonhos. O resultado da pesquisa mostra que até os anos 1960 a maioria das experiências oníricas eram em preto e branco, mas a tendência mudou desde então, com o surgimento da Televisão colorida.
O grande debate em torno desse estudo é saber se realmente sonhamos colorido ou se devido à exposição à mídia, sonhamos em preto e branco e de algum modo nossa mente reconstrói os sonhos ao acordarmos.
No entanto, meu questionamento é saber qual será o futuro do sonho.
Veja bem, se o advento da cor na Televisão gerou uma mudança na forma em que sonhamos, qual será a mudança provocada pela Televisão Digital?
Poderemos dar replay? Gravar sonhos pra assistir depois? Sonhar coisas diferentes em multijanelas?
Por ora, a única coisa que posso afirmar é que meus sonhos são coloridos. E se não posso saber o futuro dos sonhos, prefiro sonhar com o futuro.
Love Is a Losing Game
Li primeiro no Crônico, mas lendo novamente no blog da vivstiemi fiquei pensando…
Existem coisas que só fazem sentido depois de vividas certas experiências.
Não existe investimento seguro. Amar é ser vulnerável. Ame qualquer coisa e seu coração irá certamente ser espremido e possivelmente partido. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, não deve dá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Evite todos os envolvimentos, feche-o com segurança no esquife ou no caixão do seu egoísmo. Mas nesse esquife seguro, sombrio, imóvel, sufocante ele irá mudar: não será quebrado, mas vai se tornar inquebrável, impenetrável, irredimível. O único lugar fora do Céu onde você pode se manter perfeitamente seguro contra todos os perigos e perturbações do amor é o Inferno.
C.S. Lewis
Barbeiro: a figura mítica
Na época eu ainda podia contar a idade nos dedos. Esperava impacientemente olhando as revistas gastas e balançando no ar os cadarços desamarrados. As paredes eram revestidas de madeira, e nunca me esquecerei do quadro com a imagem de uma perua e os dizeres: ‘fumar é cafona’.
Eram preciso duas ou três almofadas para me deixar numa altura boa, e após algumas borrifadas de água o Borges começava, com suas mãos de tesoura e sua língua de prosa, a fazer o seu trabalho.
A única parte ruim do processo era o que ele chamava de ‘toque final’: o Bozano amarelo que fazia arder. Fora isso era sempre um acontecimento, e eu saía feliz da vida, natural de quem acaba de comprar um novo corte.
O ritual geralmente acontecia no sábado de manhã, com direito a pastel de feira na sequência. Mas o tempo foi passando e a imagem heróica do barbeiro foi sendo trocada pela figura de um profissional retrógrado. Afinal, ser hair stylist é bem mais na moda. [Aproveito para fazer o comentário de que a expressão "barbeiro" usada aqui é genérica. Pode ser o meu, o seu, ou se você for mulher, o do seu pai. Enfim, pode ser qualquer barbeiro.]
Sobre Perguntas e Respostas
Uma coisa que sempre me incomodou (e continua incomodando) é o modo binário de pensar ao qual fomos formatados desde a infância. É ou não é, está ou não está, existe ou não existe.
As pessoas que se salvam da maldição dualista são aquelas que, como Shakespeare, percebem que existe muito mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia. E aí entra o grande desafio: ver além do visível.
É engraçado perceber que num sentido físico, nossos aparatos são ao mesmo tempo recursos e limitadores de compreensão.











