Profundidade

Era um daqueles domingos ensolarados. Havia uma brisa que soprava suave e aquela sensação de Domingo, que só esse dia inexplicavelmente carrega consigo.
Ele preparou o café da manhã e acordou as meninas. A mãe, que estava viajando à trabalho, deixara tudo organizado, de modo que a roupa de domingo já estava escolhida.

Os três tomaram o café e saíram, cada qual com seu óculos escuro.
Não havia briga para ver quem sentaria no banco da frente. Era decidido que as duas sentariam no banco de trás até terem idade suficiente para serem promovidas a co-piloto. E sim, já estava combinado que quando essa data chegasse, alternariam os dias, para não haver brigas nem favorecimentos.

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Cigarro

Era um dia como hoje. Foi comprar cigarro e nunca mais voltou.
Costumava dizer que tinha espírito livre, mas a verdade é que era refém da própria liberdade.

Abruptamente abandonava empregos, amigos e amantes. Seu coração era oco, como vazio era o seu olhar.
Nunca criou raízes nem laços. Ela era como um fantasma que aparece e logo some.

Seu destino era incerto, mas seus passos, certeiros.
Nunca voltava atrás; nunca voltava.
Era um dia como hoje. Foi comprar cigarro e nunca mais voltou.

Barbeiro: a figura mítica

Na época eu ainda podia contar a idade nos dedos. Esperava impacientemente olhando as revistas gastas e balançando no ar os cadarços desamarrados. As paredes eram revestidas de madeira, e nunca me esquecerei do quadro com a imagem de uma perua e os dizeres: ‘fumar é cafona’.

Eram preciso duas ou três almofadas para me deixar numa altura boa, e após algumas borrifadas de água o Borges começava, com suas mãos de tesoura e sua língua de prosa, a fazer o seu trabalho.
A única parte ruim do processo era o que ele chamava de ‘toque final’: o Bozano amarelo que fazia arder. Fora isso era sempre um acontecimento, e eu saía feliz da vida, natural de quem acaba de comprar um novo corte.

O ritual geralmente acontecia no sábado de manhã, com direito a pastel de feira na sequência. Mas o tempo foi passando e a imagem heróica do barbeiro foi sendo trocada pela figura de um profissional retrógrado. Afinal, ser hair stylist é bem mais na moda. [Aproveito para fazer o comentário de que a expressão "barbeiro" usada aqui é genérica. Pode ser o meu, o seu, ou se você for mulher, o do seu pai. Enfim, pode ser qualquer barbeiro.]

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Sobre Perguntas e Respostas

Uma coisa que sempre me incomodou (e continua incomodando) é o modo binário de pensar ao qual fomos formatados desde a infância. É ou não é, está ou não está, existe ou não existe.

As pessoas que se salvam da maldição dualista são aquelas que, como Shakespeare, percebem que existe muito mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia. E aí entra o grande desafio: ver além do visível.
É engraçado perceber que num sentido físico, nossos aparatos são ao mesmo tempo recursos e limitadores de compreensão.

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Qualquer Lugar

Logo ao primeiro canto do galo Seu Benedito colocou os pés no chão, primeiro o esquerdo, depois o direito.
Sentado na cama calçou suas pantufas, tateou no criado-mudo seus óculos de aro e lentes grossas, colocou a cordinha ao redor do pescoço e levantou-se.

Enquanto comia um pão dormido, seu velho radinho Philips, sintonizado numa rádio AM qualquer, rasgava o imperioso silêncio da manhã.
Tão logo terminou de comer, limpou os farelos na camisa, colocou o jornal debaixo do braço e saiu de casa, assobiando um velho samba de Cartola.

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