Completamente
A última coisa que desejava era ficar em casa. Cada ângulo de cada cômodo trazia uma lembrança.
Cada vez que respirava sentia o cheiro, e doía.
Colocou no fone o último disco de Herbie Hancock e saiu sem destino, empacotado no seu moletom canguru.
A garoa fina que caía, aliada ao piano melancólico criava uma atmosfera de desolação. Acendeu um cigarro e imaginou a voz forte de Billie Holliday cantando:
“So I smoke a little too much…
But what else can you do, at the end of a love affair”.
Caminhou o suficiente para conter os inquietos pensamentos; passou por ruas escuras e desertas, e isso era a transliteração visual do que ele imaginava ser seu coração.
Pensou que talvez já esperasse o golpe. Afinal, aquele que se entrega ao outro como um prisioneiro de guerra deve antes entregar todas as armas. Vendo-se sem defesa, não pode deixar de se indagar quando virá o golpe.
Por isso, é possivel dizer que o amor para ele era a espera contínua do golpe que iria atingi-lo.
Acendia um cigarro no outro, como se a fumaça pútrida fosse amenizar sua angústia; sabia que não. Aliás, sabia que de nada adiantaria andar feito um idiota sem destino.
Foi quando pensava nessas coisas que ouviu uma voz dizendo “volta pra casa”. Era uma voz quente, que entrava pelos seus ouvidos e ressonava por todo o seu corpo. Sentia-se bem.
Jogou o cigarro no chão, pisou em cima, cobriu sua cabeça com o capuz e obedeceu à voz. Voltou pra casa.
É possível dizer que pela primeira vez na vida sentiu-se completo por apenas gostar de alguém, de verdade.
Herbie Hancock feat. Corinne Bailey Rae - River
Na real…
Jorge era um cara normal. Trabalhava no banco, jogava futebol com os amigos no fim de semana, ia no cinema com sua noiva; fazia coisas que os caras normais geralmente fazem.
Por falar em noiva, os convites já estavam na gráfica. Faltava um mês para o casamento, e Jorge estava mais nervoso do que nunca.
O comportamento agressivo e a instabilidade de humor dos últimos dias preocupou Mônica, sua noiva.
Quando ela perguntou se estava tudo bem Jorge hesitou, quase contou tudo. Mas ela não iria acreditar, pensou ele.
E não iria mesmo. Jorge era mestre em pregar peças e passar trotes. Ninguém levaria uma coisa dessas a sério, ainda mais vindo do Jorge.
Na noite seguinte Mônica abriu os olhos e não havia ninguém na cama. Virou-se e viu que horas eram: 3h45 am.
O barulho da televisão vinha da sala. Ela vestiu seu roupão e foi ver o que Jorge estava fazendo.
Lá estava ele, sentado no sofá, um pote de sorvete em uma das mãos e uma enorme colher em outra.
Tudo bem, insônia não é coisa para se estranhar, não fosse o fato de o tapete estar cheio de pacotes de biscoitos, embalagens de chocolate e um prato com o que restou de um nugget.
- Jorge, está tudo bem? Você comeu tudo isso sozinho?
- É querida, estava com fome. Sabe como é…
- Mas você não comeu o suficiente no jantar? Você quase acabou com o estoque de carne daquela churrascaria.
- É, eu sei. Mas eu estou com fome, ok? Dá pra me deixar comer em paz?
- O que está acontecendo Jorge? Conta pra mim pelo amor de Deus. Nós vamos nos casar daqui 28 dias, será que…
- É tpm.
- Eu não estou com tpm, Jorge.
- Não, eu estou!
- Jorge Augusto, eu não estou brincando com você!
- É sério querida. O mau-humor, o estresse, a ansiedade… eu não consigo parar de comer. Queria ter te contado antes, mas você não entenderia. Mas agora tá passando; tô sentindo que vai vir por amanhã. E além disso a minha tabelinha nunca falhou.
- …
- Boa noite querida, também te amo!
Ansiedade
Chegou ao lugar marcado com trinta minutos de antecedência. Comunicou ao garçom dois lugares na ala de fumantes e logo acomodou-se ao lado da vitrine, de onde poderia ter uma visão da rua toda.
Com as mãos trêmulas pegou a carta de vinhos e deixou a indecisão tomar conta de si. Intermináveis cinco minutos não foram suficientes para que escolhesse algo que lhe agradasse. Decidiu então escolher o vinho assim que ela chegasse; se ela chegasse, pensou. Mas não, tinha que pensar positivamente; é lógico que ela viria.
Ele não sabia como se comportar com o corpo que tinha. Ora estalava os dedos ora balançava a perna, e a cada minuto arrumava a gola da camisa umas duas ou três vezes.
Começou a sentir calor. Olhava de um lado a outro do restaurante, como se procurasse alguém que poderia estar por qualquer parte. Na rua não vinha ninguém, e quando surgia alguma sombra distante seu coração pulsava mais rapidamente.
Olhou para o relógio e sentiu um nó na garganta quando viu que faltavam apenas dois minutos para a hora marcada.
Estático, vigiou os cento e vinte segundos sem prestar atenção. Sua cabeça estava em outro lugar. Imaginando ela com outro homem, ou talvez sendo raptada enquanto saía para o encontro, ou sendo assaltada naquele mesmo momento; ou então, (apertando os dedos uns contra os outros) ela estaria vindo, com um vestido preto, cabelos soltos, calçando um irresistível Manolo Blahnik.
Desejou não ter marcado o encontro, pois não sabia esperar. E enquanto se decidia entre olhar o relógio novamente e arrumar a gola da camisa deu seu último suspiro e caiu por sobre a carta de vinhos.
Ao fundo, um velho bandeonista tocava um tango de Gardel. E o garçom, com ar fúnebre, enquanto conferia o pulso do pobre homem, dizia para os que se aglomeravam em volta da mesa: marcou um encontro com a morte.