Unwritten Law
Acho que a partir de hoje vou estabelecer uma unwritten law aqui no blog, a exemplo da Lori Meyers.
Sempre que escrevo sobre sentimentos tenho a impressão de que tudo o que falo poderá ser usado contra mim.
Além disso, penso que escrever é uma atividade ingrata.
A partir do momento em que você escreve sobre um sentimento, ele não te pertence mais; deixa de ser seu e passa a ser de outras pessoas.
É como se nossos sentimentos fossem nossos filhos. E essa comparação me fez lembrar de alguns versos do célebre escritor libanês Khalil Gibran:
- Vossos filhos não são vossos filhos.
- São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
- Vêm através de vós, mas não de vós.
- E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Esse repúdio à libertação pública dos sentimentos é quase um egoísmo de mãe-coruja.
Por isso, como se fosse possível, fica decretado que não se fala mais de sentimentos nesse lugar.
E tenho dito!
Johnny Cash - You Are My Sunshine
Completamente
A última coisa que desejava era ficar em casa. Cada ângulo de cada cômodo trazia uma lembrança.
Cada vez que respirava sentia o cheiro, e doía.
Colocou no fone o último disco de Herbie Hancock e saiu sem destino, empacotado no seu moletom canguru.
A garoa fina que caía, aliada ao piano melancólico criava uma atmosfera de desolação. Acendeu um cigarro e imaginou a voz forte de Billie Holliday cantando:
“So I smoke a little too much…
But what else can you do, at the end of a love affair”.
Caminhou o suficiente para conter os inquietos pensamentos; passou por ruas escuras e desertas, e isso era a transliteração visual do que ele imaginava ser seu coração.
Pensou que talvez já esperasse o golpe. Afinal, aquele que se entrega ao outro como um prisioneiro de guerra deve antes entregar todas as armas. Vendo-se sem defesa, não pode deixar de se indagar quando virá o golpe.
Por isso, é possivel dizer que o amor para ele era a espera contínua do golpe que iria atingi-lo.
Acendia um cigarro no outro, como se a fumaça pútrida fosse amenizar sua angústia; sabia que não. Aliás, sabia que de nada adiantaria andar feito um idiota sem destino.
Foi quando pensava nessas coisas que ouviu uma voz dizendo “volta pra casa”. Era uma voz quente, que entrava pelos seus ouvidos e ressonava por todo o seu corpo. Sentia-se bem.
Jogou o cigarro no chão, pisou em cima, cobriu sua cabeça com o capuz e obedeceu à voz. Voltou pra casa.
É possível dizer que pela primeira vez na vida sentiu-se completo por apenas gostar de alguém, de verdade.
Herbie Hancock feat. Corinne Bailey Rae - River
Ansiedade
Chegou ao lugar marcado com trinta minutos de antecedência. Comunicou ao garçom dois lugares na ala de fumantes e logo acomodou-se ao lado da vitrine, de onde poderia ter uma visão da rua toda.
Com as mãos trêmulas pegou a carta de vinhos e deixou a indecisão tomar conta de si. Intermináveis cinco minutos não foram suficientes para que escolhesse algo que lhe agradasse. Decidiu então escolher o vinho assim que ela chegasse; se ela chegasse, pensou. Mas não, tinha que pensar positivamente; é lógico que ela viria.
Ele não sabia como se comportar com o corpo que tinha. Ora estalava os dedos ora balançava a perna, e a cada minuto arrumava a gola da camisa umas duas ou três vezes.
Começou a sentir calor. Olhava de um lado a outro do restaurante, como se procurasse alguém que poderia estar por qualquer parte. Na rua não vinha ninguém, e quando surgia alguma sombra distante seu coração pulsava mais rapidamente.
Olhou para o relógio e sentiu um nó na garganta quando viu que faltavam apenas dois minutos para a hora marcada.
Estático, vigiou os cento e vinte segundos sem prestar atenção. Sua cabeça estava em outro lugar. Imaginando ela com outro homem, ou talvez sendo raptada enquanto saía para o encontro, ou sendo assaltada naquele mesmo momento; ou então, (apertando os dedos uns contra os outros) ela estaria vindo, com um vestido preto, cabelos soltos, calçando um irresistível Manolo Blahnik.
Desejou não ter marcado o encontro, pois não sabia esperar. E enquanto se decidia entre olhar o relógio novamente e arrumar a gola da camisa deu seu último suspiro e caiu por sobre a carta de vinhos.
Ao fundo, um velho bandeonista tocava um tango de Gardel. E o garçom, com ar fúnebre, enquanto conferia o pulso do pobre homem, dizia para os que se aglomeravam em volta da mesa: marcou um encontro com a morte.
Fragmentos
Lá vão dois versos de dois amigos:
que o meu amor por ti se desenlace
como a ave que só chora se o sol nasce
e o arco-íris que só nasce se o céu chora
Augusto dos Anjos
(eu gosto desse lance do “só chora se nasce, só nasce se chora”)
encare de frente
enfrente
face a face
não deixe
que um impasse
te impeça
ou te pare
…Pietro Almeida
(a temática me agrada, e o sons que as palavras formam é bacana)
Atenciosamente, Orhan Pamuk
Acabei de ler Neve, do Nobel de Literatura Orhan Pamuk, e só posso concordar com o que a escritora Margaret Atwood escreveu para o The New York Times; que é não só um triunfo da narrativa, mas também uma leitura essencial de nosso tempo.
Ele é o único romance político de Pamuk, mas está longe de ser um livro chato, pois trata diretamente do cerne de toda questão política (e porque não, da vida) que são as fraquezas humanas, os sentimentos, o amor.