Cursiva
Da série “Ouvindo Conversas Alheias”.
- Me ajuda a escrever esse cartão. Como se diz “Vou sentir sua falta” em francês?
- Escreve aí: “Je vais vous man…”, calma! Escreve com letra de mão, cursiva.
- Mas minha letra é horrível, acho melhor escrever assim, com letra de forma.
- Não importa, a caligrafia é uma característica sua, é carregada da sua personalidade.
Não que seja uma conclusão genial, mas nunca tinha parado pra pensar nisso. Quanto de nossa personalidade há em nossa caligrafia?
Fiquei intrigado com essa história e dei uma pesquisada por aí.
Sobre peixes e plantas
- Eu estava em dúvida entre um peixe e uma planta, que são quase a mesma coisa.
- Como assim?
- Ah, os dois não pensam.
- É verdade! E escolheu o quê?
- Optei pela planta, pelo menos não tem que ficar dando comida.
- Hãn. Os dois são burros.
Ouvi esse diálogo na rua, e isso ficou ecoando na minha cabeça durante bastante tempo. Como assim um peixe não pensa?
A única semelhança que vejo entre os dois (tirando o fato de serem seres vivos) é que são comumente usados apenas como elemento decorativo.
Pra começar, peixes têm sistema nervoso complexo e seu cérebro processa os sentidos de gosto e cheiro. Plantas podem sentir gosto e cheiro? (Não)
Aproximadamente todos os nossos amigos escamosos possuem olhos bem desenvolvidos com visão colorida. Plantas podem ser míopes ou daltônicas? (Não)
Em 2003, cientistas da Universidade de Edimburgo descobriram que os peixes podem sentir dor. Plantas podem chorar de dor? (Aparentemente não)
Pra finalizar, o que prova que peixes são muito mais legais que plantas é o fato de existir diversos filmes de peixe por aí; vide Procurando Nemo (2003), O Espanta Tubarões (2004), A Pequena Sereia (1989), Minha Mãe é Uma Sereia (1990), e por aí vai.
Existe algum filme de planta? (Não que eu me lembre)
Resultado: Peixes 1 x Plantas 0
“Meu peixe favorito? Uma piranha na banheira de minha ex-mulher.”
- W. C. Fields
Smoke City - Underwater Love
(trilha de ‘Mermaids‘, comercial da Levi’s dirigido pelo gênio Michel Gondry)
Unwritten Law
Acho que a partir de hoje vou estabelecer uma unwritten law aqui no blog, a exemplo da Lori Meyers.
Sempre que escrevo sobre sentimentos tenho a impressão de que tudo o que falo poderá ser usado contra mim.
Além disso, penso que escrever é uma atividade ingrata.
A partir do momento em que você escreve sobre um sentimento, ele não te pertence mais; deixa de ser seu e passa a ser de outras pessoas.
É como se nossos sentimentos fossem nossos filhos. E essa comparação me fez lembrar de alguns versos do célebre escritor libanês Khalil Gibran:
- Vossos filhos não são vossos filhos.
- São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
- Vêm através de vós, mas não de vós.
- E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Esse repúdio à libertação pública dos sentimentos é quase um egoísmo de mãe-coruja.
Por isso, como se fosse possível, fica decretado que não se fala mais de sentimentos nesse lugar.
E tenho dito!
Johnny Cash - You Are My Sunshine
Olfato
Cronologicamente, a parte mais antiga na evolução do cérebro humano é o rinencéfalo, responsável pelo olfato.
Sendo assim, a capacidade de expressar e experimentar emoções originou-se provavelmente da habilidade de processar odores.
Assim como nas emoções básicas, a resposta olfativa é simples e binária: ou você gosta ou não gosta.
Um fato curioso é que em muitos casos de traumas com consequente perda do olfato, verifica-se uma diminuição de intensidade em todas as experiências emocionais.
Dito isso é fácil perceber porque as coisas dentro de mim mudam quando sinto aquele cheiro.
São dois estágios: primeiro o físico, depois o emocional.
O cheiro doce entra, vai direto pro meu peito, e faz doer. Faz meu coração se apertar e depois o acelera.
Em seguida é como se acontecesse uma sublimação na minha barriga e tudo fica gelado. O cheiro vai subindo pela espinha até chegar à nuca, e é por lá que o segundo estágio acontece.
As gigantes comportas do pensamento são abertas e tudo é inundado muito rapidamente. Não dá tempo de organizar, nem de pensar em uma coisa só. O jeito é esperar.
Quando as ondas de pensamento se acalmam chega a saudade, de mansinho. E nessa hora, por razão da metonímia, é quase possível escutar a voz dela dizendo: “Saudade não se conta!”.
E então todos os dias, e tudo o que aconteceu começa a ser lembrado. Fato por fato. Todos os diálogos travados, e todos os que poderiam ter sido.
A confusão vai tomando forma novamente e acontece um rewind das comportas sendo abertas (só que para trás, é claro). E quando a última gota de pensamento é sugada, o corpo todo recebe a visita dos mais dissemelhantes sentimentos.
E é assim que acaba; o corpo tomado pela alegria, tristeza, saudade, paixão e incerteza.
Se me permitem acrescentar, outro fato curioso é que tudo isso se passa em menos de um segundo.
Enfim, vai entender o corpo humano…
Clichê
Hoje peguei minha agenda de 2006 e li todinha, de janeiro a dezembro.
É engraçado ver a evolução das coisas, a sucessão dos fatos, os acertos e erros do ano passado.
Você acaba se descobrindo uma pessoa cheia de planos. Alguns realizados, outros não.
O ano passado foi um ano de transições, de mudanças. Coisas que não voltam mais.
Foi uma recepção à vida adulta. E é engraçado perceber como em apenas um ano as coisas dentro de mim mudaram abruptamente.
É nessas horas que a gente chega à conclusão de que a vida não é como um filme: começo, meio e fim. A vida é orgânica, vai se moldando de acordo com as situações. Nada é garantido, e é justamente por isso que se deve aproveitar cada momento; porque momentos são momentâneos: não voltam nunca mais.